Sobre o Suicídio: Relação com a Depressão?

18 10 2012

Autor: Angelo A. S. Sampaio (Univasf)

Um dos poucos comportamentos tipicamente humanos talvez seja esse: tirar a própria vida “intencionalmente”; agir de modo a que não se possa mais nunca agir. Por quê? Como explicar um ato que parece tão irracional em uma espécie que muitas vezes se define pela racionalidade? Para responder a isso há ainda uma questão preliminar: como explicar algo que não pode, por definição, ter sido explícita e completamente aprendido?

 

Comecemos por essa questão preliminar. Além da importância social do tema, há exatamente algum interesse no tema do suicídio por esse parecer ser “um comportamento sem história”. Afinal, ninguém tem uma história pessoal e direta com o suicidar-se. Como é possível, então, se aprender a cometer suicídio? De fato, essa questão é semelhante a questões envolvidas em quaisquer “comportamentos novos”, isto é, comportamentos que ainda não foram emitidos pelo indivíduo. Nesse sentido, por mais estranho e paradoxal que possa parecer, o atirar-se de uma janela tem algo em comum com o compor uma música: ambos nunca foram emitidos antes pela pessoa nem foram explicitamente ensinados. Para explicar comportamentos novos (seja o atirar-se de uma janela ou o compor uma música) o analista do comportamento começa afirmando que uma resposta específica não precisa já ter sido emitida no passado pelo indivíduo, nem precisa ter produzido certas consequências específicas (reforçadoras) no passado para ser emitida no presente. Se assim fosse, passaríamos toda a nossa vida fazendo apenas as poucas coisas que nascemos fazendo. Ademais, a aprendizagem de novas respostas não ocorre apenas pela apresentação explícita de consequências diferenciais para essas respostas (como ocorre no procedimento conhecido como modelagem). As possibilidades de produção de novas respostas são diversas e são reconhecidas e estudas pela Análise do Comportamento (Bandini & De Rose, 2006).

Desse modo, uma resposta de suicidar-se não precisa já ter sido emitida anteriormente – e nem poderia – para ocorrer no presente. Porém, ela também não pode ter surgido “do nada”, isto é, sem nenhuma história relevante – se não estaríamos assumindo que o comportamento humano é indeterminado, inexplicável e deixaríamos de estar fazendo ciência. Devemos, portanto, ao menos elencar possíveis explicações para o ato de suicidar-se – passando às primeiras perguntas com as quais começamos.

Um suicídio pode fazer parte de diferentes classes de respostas, isto é, pode ter diferentes “intenções”, e portanto pode ter múltiplas causas (Banaco, 2001). Nosso objetivo aqui será apenas apresentar algumas hipóteses e interpretações ao menos plausíveis a partir de uma perspectiva analítico-comportamental. Uma tentativa nessa direção pode começar com a sugestão de que suicídio e “depressão” têm algo em comum. Muitas pessoas “depressivas” ameaçam se matar, algumas chegam a tentar e outras, infelizmente, realmente o fazem. Por outro lado, muitas pessoas que tentam se suicidar parecem apresentar “sintomas” parecidos com os de pessoas “deprimidas”. É claro que o diagnóstico psiquiátrico de depressão envolve um quadro temporal longo que nem sempre está presente em todas as pessoas suicidas. Mas a própria psiquiatria descreve episódios depressivos também – que talvez englobem os exemplos de suicídios não precedidos por longos períodos depressivos.

De qualquer modo, deixando a Psiquiatria de lado, os processos ou fenômenos comportamentais mais amplos envolvidos nos “episódios depressivos” (e na “depressão”) podem ser semelhantes aos envolvidos em um suicídio. Sem adentrar muito na literatura analítico-comportamental específica sobre depressão, podemos mencionar algumas explicações (ou modelos experimentais) para lidar com o tema: extinção e coerção; desamparo aprendido; e efeitos do estresse moderado crônico. Alguns autores (Ferster, 1977, Sidman, 1989/2003) sugerem que um processo importante para o desenvolvimento da depressão – ou ao menos de alguns comportamentos presentes em algumas pessoas diagnosticadas como depressivas – pode ser a falta de reforçadores positivos, produzida pela extinção (suspensão de uma consequência reforçadora que vinha sendo apresentada) ou pelo excesso de coerção (apresentação de reforçadores negativos ou uso de punidores). Isso geralmente produz uma diminuição na frequência dos comportamentos – o que pode nos levar a observar uma pessoa “que não quer mais fazer nada”, “não quer sair do quarto”, “só fica dormindo” etc. e a falar de sua “falta de vontade” de fazer as coisas.

Outros autores destacam o desamparo aprendido como parte da explicação da “depressão” (ver Hunziker, 2005). Falamos de desamparo aprendido quando a exposição a eventos aversivos incontroláveis gera uma dificuldade em aprender a evitar uma nova situação aversiva escapável. O indivíduo parece aprender que nada que ele faz consegue mudar o mundo triste e cruel no qual ele vive – ele entra em desamparo. Isso poderia explicar situações nas quais pessoas depressivas parecem “afundar cada vez mais” em situações horríveis das quais poderiam escapar se “se movessem”. Instala-se a “apatia”.

Outra possível explicação de aspectos da “depressão” envolve a exposição a estresse crônico moderado, ou seja, a estimulação aversiva moderada por um longo período de tempo. Experimentos sobre o tema às vezes encontram que esse tipo de história produz a perda do valor reforçador de outras consequências. Por exemplo, ratos, após passarem dias em um ambiente inclinado, barulhento, com luzes irritantes e outros estressores, passaram a beber menos água e menos água açucarada também (a princípio, mais reforçadora do que a água pura) (e.g., Cardoso & Banaco, 2009). Esses reforçadores líquidos pareceram “perder a graça”; os ratos pareceram não ter mais “tanto prazer” em beber sua dose de água e açúcar. Isso nos lembra de como depressivos às vezes relatam viver em um mundo “sem graça”, “acinzentado”, “insosso”. Poderia ser uma explicação para comportamentos agrupados no sintoma chamado de anedonia.

Se a extinção e a coerção, o desamparo aprendido e o estresse crônico moderado (além de outras possíveis variáveis relevantes) podem levar a um quadro ou a um episódio depressivo, será que os mesmos processos não podem estar presentes em casos de suicídio? Se as coisas que uma pessoa gostava de fazer não podem mais ser feitas ou não tem mais os mesmos resultados que ela gostava (extinção e coerção); se seguidamente e de modo inesperado ela foi obrigada a enfrentar situações terríveis e não pôde evitá-las todas as vezes (desamparo aprendido); se ela viveu por um bom período de tempo em um mundo estressante e as coisas que lhe faziam feliz já não tem mais a mesma graça (estresse crônico moderado) – a não ser que as coisas mudem radicalmente em sua vida, talvez ela acabe “entrando em depressão” ou se suicidando. Talvez esses sejam dois conjuntos de relações comportamentais muito próximas, ambas tendo como condição necessária uma, algumas ou todas as variáveis mencionadas. Essa hipótese poderia ser testada – ao menos em um nível populacional – comparando dados epidemiológicos sobre suicídios e sobre depressão.

Mas o que levaria uma pessoa particular a entrar em depressão ou a se suicidar? Podemos sugerir que a diferença entre os dois cursos de ação esteja em: (a) como a pessoa lidou com situações semelhantes no passado e seus resultados nessas situações passadas (“vou ficar quieto e esperar para ver se melhora” ou “vou desistir de tudo!”); (b) em como ela analisa as possibilidades futuras de mudança da sua vida (“talvez melhore algum dia” ou “não tem jeito! nada vai mudar!”); (c) o que ela aprendeu sobre morte (“morrer é algo muito doloroso” ou “morrer não pode ser tão ruim assim”); (d) o que ela aprendeu sobre o que pode ocorrer depois de você morrer (“suicidas passarão toda a eternidade pagando pelo pecado de tirar a própria vida” ou “a morte é o final de nossa existência”; “o que será de meus filhos, meus parentes e amigos?!” ou “eu vou deixar de ser um peso para meus conhecidos e parentes”). Os três últimos pontos destacados parecem ser impossíveis de ocorrerem sem um repertório verbal bem desenvolvido – o que poderia explicar a aparente exclusividade do suicídio entre humanos (e entre humanos já com certa idade)[1]. Novamente, essas são hipóteses que poderiam ser testadas – e que já podem inclusive ter sido testadas na literatura especializada da área.

Referências

Banaco, R. A. (2001). Um levantamento de fatores que podem induzir ao suicídio. Em H. J. Guilhardi, M. B. B. P. Madi, P. P. Queiroz & M. C. Scoz (Org.), Sobre Comportamento e Cognição: expondo a variabilidade – volume 8 (pp. 210-217). 1ed. Santo André: ESETEC.

Bandini, C. S. M.; De Rose, J. C. C. (2006). A abordagem behaviorista do comportamento novo. Santo André, SP: ESETec.

Cardoso, L. R. D. & Banaco, R. A. (2009). Efeitos do esquema de intervalo variável no desenvolvimento de anedonia induzida por estresse crônico moderado em ratos. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 5 (1), 79-96.

Ferster, C. B . (1977). Depressão clínica. Em C. B. Ferster, S. Culbertson & M. C. Perrot-Boren,Princípios do comportamento (pp. 699-725). São Paulo: Hucitec.

Hunziker, M. H. L. (2005). O desamparo aprendido revisitado: estudos com animais. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 21, 131-139.

Sidman, M. (2003). Coerção e suas implicações. Campinas, SP: Livro Pleno. (Originalmente publicado em 1989.)

Notas: O autor agradece à instigação inicial para a redação desse texto, aos comentários e questões levantadas por Tiago Zortea. O texto foi inicialmente publicado no blog Comporte-se – Psicologia Científica.

[1] Esse ponto caminharia ao encontro das proposições da Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory) sobre o suicídio (de acordo com Banaco, 2001).


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